O dia depois da festa: uma ode à loiça por lavar

Há uma mentira muito bonita que toda a gente que dá jantares em casa conta a si própria na véspera: “desta vez vou manter tudo organizado enquanto cozinho, e no fim a limpeza é um instante.” É uma mentira generosa, otimista, quase comovente na sua ingenuidade. Porque no dia seguinte, quando se acorda com o cheiro a vinho tinto na sala e se descobre que alguém usou a tábua de cortar queijo como base para um copo de sumo de laranja de criança, percebe-se que não. Não foi um instante. Não foi sequer parecido com um instante.

Os jantares em casa voltaram com uma força que nenhuma aplicação de reservas consegue travar. E faz todo o sentido: quando o grupo de amigos começa a ter filhos, a logística de sair todos juntos transforma-se num projeto de gestão digno de uma tese de doutoramento. É preciso alinhar babysitters, horários de sono, birras de adaptação e pelo menos um pai ou mãe que “não pode beber porque amanhã tem uma coisa”. O jantar em casa resolve tudo isto de forma elegante: as crianças adormecem no quarto de brinquedos do anfitrião, os adultos abrem uma segunda garrafa, e a noite prolonga-se muito para lá do que qualquer um planeou. É perfeito. É mesmo muito perfeito. Até o momento em que toda a gente vai embora e se fecha a porta.

O silêncio pós-festa tem um som muito específico

É o som de dez copos espalhados pela sala, de três pratos com restos de queijo que ninguém terminou, de uma criança que deixou meia bolacha esquecida no sofá e de uma travessa de lasanha que ficou a meio e que agora precisa de ser arrumada antes que o cão tome decisões por conta própria. A cozinha, que de manhã estava imaculada, parece ter vivido a sua própria festa em paralelo, uma festa muito mais selvagem e sem convidados. Há uma panela a demolhar que vai ficar ali mais dois dias, é completamente inevitável, e há sempre aquele momento em que se encontra um copo atrás do vaso da sala que absolutamente ninguém consegue explicar como chegou ali.

A verdade inconveniente dos jantares em casa é esta: quem recebe cozinha, serve, anima, abre porta, apresenta pessoas, garante que a criança mais tímida do grupo tem alguém com quem brincar, explica onde fica a casa de banho quatro vezes, impede que o cão ponha às patas em cima da mesa pelo menos dez vezes, e depois, quando toda a gente vai embora feliz e satisfeita e já a planear o próximo jantar, fica sozinho a olhar para o cenário. Há uma assimetria aqui que nunca ninguém menciona na hora dos parabéns ao anfitrião.

No entanto, continuamos

Mas eis o que acontece enquanto se lava a loiça às onze da noite com os pés a doer: vai-se a repetir mentalmente os melhores momentos da noite. A conversa que ficou interminável sobre aquele assunto que ninguém esperava que rendesse tanto. A risada coletiva que fez o vizinho do lado bater na parede. O momento em que dois amigos que não se conheciam descobriram que têm exatamente a mesma opinião sobre um tema completamente obscuro. O olhar cúmplice entre adultos quando uma das crianças disse qualquer coisa inesperadamente filosófica ao jantar. Estas coisas não acontecem num restaurante. Num restaurante há um menu fixo, um tempo implícito e uma conta que chega antes de a conversa acabar. Em casa, a noite dura exatamente o tempo que precisa de durar.

Por isso, sim, a loiça é muita e o balcão da cozinha vai precisar de uma atenção especial e há sempre aquele tabuleiro do forno que fica de molho até à próxima semana. Mas a mesa ainda tem os sinais da noite, os lugares onde cada um se sentou, os copos que ficaram esquecidos no lugar errado, e há qualquer coisa de muito satisfatório em arrumar tudo isso sabendo exatamente que memória cada objeto representa.

O acordo não escrito dos jantares em casa

Com o tempo, quem dá jantares regularmente chega a uma paz interior sobre o assunto. Aceita-se que a cozinha vai ficar no estado em que vai ficar. Aceita-se que há sempre um amigo que oferece ajuda mas a quem se diz que não, porque ter alguém na cozinha enquanto se está a tentar encontrar a tampa da travessa é mais stressante do que fazer tudo sozinho. Aceita-se que os amigos que ficam até mais tarde são os mesmos que no dia seguinte mandam mensagem a dizer que foi a melhor noite dos últimos meses, e que isso compensa tudo.

E aceita-se, finalmente, que dar jantares em casa não é um gesto de hospitalidade. É um vício. Um vício caro em detergente e horas de sono, mas completamente irresistível. Porque no fundo, quem dá jantares sabe de uma coisa que os outros ainda não perceberam: ficar a arrumar sozinho depois de toda a gente ir embora, com a casa cheia do cheiro da noite e os ecos das conversas ainda no ar, tem qualquer coisa de secretamente agradável. É o momento em que a festa é, finalmente, só nossa.

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