Hoje a noite e o dia têm o mesmo tamanho. E isso muda alguma coisa em nós.

Uma vez por ano, o mundo entra em equilíbrio. Talvez seja um bom momento para nós também. Hoje é o equinócio da primavera. Não é um feriado. Não há bolo nem velas nem ninguém a enviar mensagem de parabéns. Mas há qualquer coisa que acontece hoje que acho que merece um momento de atenção: durante algumas horas, a noite e o dia têm exatamente o mesmo tamanho. O sol nasce a este e põe-se a oeste, com uma precisão quase matemática. O mundo entra em equilíbrio. E depois, a partir de amanhã, a luz começa a ganhar.

Há culturas que celebram este dia há milénios. Os persas chamam-lhe Nowruz, o Ano Novo, e é uma das festas mais antigas do mundo. Os celtas acendiam fogueiras. Os japoneses limpam a casa. Os povos andinos levavam oferendas ao sol. Todos eles, em sítios completamente diferentes do planeta, sentiram que este momento merecia ser assinalado.

Talvez porque haja algo no corpo humano que reconhece esta mudança antes da cabeça a processar. Uma leveza que aparece sem avisar. Uma vontade de abrir as janelas, de mudar a disposição dos móveis, de recomeçar qualquer coisa que ficou parada no inverno.

O inverno tem o seu charme, claro. Tem a sua necessidade. É a estação do recolhimento, do descanso, de ficar dentro de casa sem culpa enquanto chove lá fora. Mas há uma certa fadiga que se acumula. Uma espécie de peso que nem sempre conseguimos nomear mas que sentimos na mesma, como se tivéssemos estado a segurar o fôlego durante meses sem dar por isso. O equinócio é o sinal de que podes soltar.

A primavera não exige nada de nós. Não pede resoluções de ano novo nem metas nem reinvenções radicais. Pede apenas que reparemos. Que notemos a luz diferente a esta hora da tarde. Que olhemos para uma árvore que na semana passada estava completamente nua e hoje tem flores brancas a aparecer nos ramos como se fosse a coisa mais natural do mundo, porque é. Que percebamos que as coisas voltam. Sempre voltam.

Há uma frase que leio de vez em quando e que hoje faz sentido de uma forma muito particular: a natureza não apressa, e no entanto consegue tudo. Não sei se acredito em grandes verdades universais, mas acredito nisto. Acredito que há um ritmo nas coisas que existe independentemente da nossa pressa, dos nossos prazos, das nossas listas de tarefas que nunca terminam.

O equinócio acontece hoje quer nós estejamos prontos quer não. A primavera começa de qualquer forma. A luz vai crescendo todos os dias, alguns minutos de cada vez, silenciosamente, sem anunciar nada.

Talvez a lição seja essa. Que as melhores mudanças não chegam com barulho. Chegam como a luz: gradualmente, inevitavelmente, até que um dia olhas à tua volta e percebes que está tudo diferente.

Hoje a noite e o dia têm o mesmo tamanho. É dia para abrir a janela. Reparar na luz. Deixar a primavera entrar.

#GlitterUpYourLife