A minha avó mandou-me hoje um texto no WhatsApp que era basicamente um ataque coordenado de ditados populares. Uma avalanche. Uma masterclass. Um verdadeiro “Camões encontra grupo de família”.
E fez-me pensar numa coisa: nós achamos que falamos português. Mas na verdade vivemos mergulhadas numa língua que é puro drama, ironia e exagero.
A língua portuguesa não diz simplesmente “estou irritada”. Diz que foi aos arames.
Não diz “errei”. Diz que meteu os pés pelas mãos.
Não diz “engoli o orgulho”. Diz que engoliu um sapo.
E sinceramente? Isto é cinema.
Os nossos provérbios são quase memes analógicos. São frases que já vinham prontas antes de existirem captions. São respostas afiadas para qualquer situação da vida: da discussão amorosa ao caos no trabalho.
Alguém exagera? Está a fazer uma tempestade num copo de água.
Alguém confunde tudo? Trocou alhos por bugalhos.
Alguém insiste no mesmo assunto? Vira o disco e toca o mesmo.
Isto não é só linguagem. É personalidade coletiva.
E há qualquer coisa muito cool em perceber que, antes de existirem trends, já existia esta criatividade toda escondida na boca das nossas avós. Elas não precisam de sarcasmo importado da internet. Têm séculos de sabedoria com zero filtros.
O melhor é que estes ditados são completamente excessivos. Ninguém “fica chateado”. Fica com os azeites. Ninguém “desiste”. Pendura as botas. Ninguém “ignora”. Faz vista grossa.
É dramático. É visual. É quase teatral.
E talvez seja por isso que a nossa língua é deliciosa. Porque não é direta, é imaginativa.
Não é seca, é exagerada. Não é simples, é cheia de camadas.
No meio de tanta expressão importada, tanta gíria anglo e tanto “literally”, às vezes esquecemo-nos de que já temos um arsenal inteiro de frases icónicas.
A língua portuguesa é um bocado traiçoeira, sim. Mas também é das coisas mais criativas que herdámos.
E se alguém disser que não conheces um quarto das expressões portuguesas… respira fundo, não metas o rabo entre as pernas e lembra-te: Pão, pão. Queijo, queijo.
#GlitterUpYourLife