No Dia da Mulher celebramos conquistas, força, resiliência, capacidade infinita de fazer malabarismo com trabalho, família, vida social, autocuidado, metas, listas, culpas, expectativas… e ainda encontrar tempo para parecermos (minimamente!) funcionais. Basicamente, celebramos mulheres que são atualmente uma espécie de versão humana de um “canivete suíço” emocional.
Existe uma narrativa silenciosa, e perigosamente glamourizada, de que a mulher moderna tem que dar conta de tudo. Profissional competente, mãe presente, parceira disponível, amiga dedicada, filha atenciosa, pessoa equilibrada, saudável, produtiva, zen e, se possível, com uma pele luminosa. É a famosa síndrome da supermulher, que na prática não tem capa nem banda sonora épica, tem cansaço crónico e uma agenda caótica.
Do ponto de vista psicológico, isto não é apenas uma questão de estilo de vida. É fisiologia pura. O teu sistema nervoso não distingue entre “tenho um prazo importante” e “estou a ser perseguida por um tigre”. Stress é stress. Quando vives em modo sempre ligada, o corpo responde com cortisol, tensão muscular, fadiga mental, irritabilidade, dificuldades de sono e aquela sensação subtil de “não aguento mais ninguém a pedir-me nada hoje”.
Spoiler científico pouco glamoroso: ninguém funciona bem em estado de sobrevivência permanente.
A pausa, ao contrário do que muitas crenças dizem, não é preguiça. É regulação. É a manutenção básica do sistema operativo humano. É o equivalente emocional a carregar a bateria porque, surpresa, tu não és movida a energia infinita (nem a café).
E aqui surge um detalhe curioso: muitas mulheres sabem isto racionalmente, mas emocionalmente continuam a sentir culpa ao abrandar. Como se descansar precisasse de justificação médica, aprovação social ou um certificado oficial de exaustão extrema. “Eu paro quando acabar isto tudo” é uma frase comum. O problema? “Isto tudo” nunca acaba.
Autocuidado real não é necessariamente spas, velas aromáticas e playlists relaxantes (embora tudo isto seja bem-vindo). Muitas vezes é bem menos instagramável e muito mais pragmático:
– Dormir sem negociar contigo própria
– Dizer “não” sem discurso de defesa de tese
– Fazer pausas antes do colapso
– Não tratar exaustão como medalha de honra
– Aceitar que não tens de ser excelente em tudo, o tempo todo
Porque há aqui uma verdade, ainda, pouco proliferada nas redes sociais: burnout não acontece por falta de força, acontece por excesso de esforço sem recuperação.
E não, não precisas de “merecer” descansar. Descanso não é recompensa. É uma necessidade biológica.
Curiosamente, quando começas a respeitar as tuas pausas, algo quase mágico acontece: aumenta a clareza mental, a paciência, a capacidade de decisão, a energia emocional. A produtividade melhora. A culpa diminui. A vida deixa de parecer um sprint.
É por isso que falar sobre isto no contexto do Dia da Mulher e, num mês de março dedicado a todas as mulheres, faz tanto sentido. Celebrar mulheres não pode significar apenas aplaudir o quanto aguentam. Também tem de incluir legitimar o quanto precisam de parar.
No próximo dia 7 de março vou aprofundar precisamente este tema com uma palestra sobre Supermulher também precisa de pausa, no Woman Summit, em Cascais — atenção, isto não é um teaser dramático. É apenas uma extensão natural desta reflexão. Porque ler sobre pausas é importante. Refletir é fundamental. Porém, aprender e integrar ferramentas práticas para gerir stress, autoexigência e culpa é outra camada completamente diferente.
Cada coisa tem o seu efeito.
A consciência abre portas. A prática muda padrões.
Até lá, fica com esta ideia simples (mas psicologicamente poderosa): não precisas deixar de ser uma supermulher. Só não precisas viver como uma máquina. Permite-te viver como um ser humano (perfeitamente imperfeito)!
Feliz Dia da Mulher para todas nós!
Helena Paixão – Psicóloga Clínica
CEO & Founder Clínica Helena Paixão – Psicologia, Mindfulness e Desenvolvimento Pessoal
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