Síndrome de Asperger: o diagnóstico que já não o é mas continua a ser

Durante décadas, a designação Síndrome de Asperger foi utilizada para identificar um conjunto de características do neurodesenvolvimento associadas a dificuldades na interação social, padrões  de interesses restritos e/ou comportamentos repetitivos, na ausência de défice cognitivo ou de atraso significativo da linguagem. Com a publicação da versão mais recente do manual de diagnósticos em saúde mental, em 2013, este diagnóstico deixou de existir e passou a ser integrada no amplo conceito de Perturbações do Espetro do Autismo. 

Esta mudança conceptual no diagnóstico fundamentou-se no facto de parecer haver um espectro contínuo de sintomas e de manifestações clínicas, que vão variando em gravidade e impacto funcional nas diferentes perturbações conhecidas do neurodesenvolvimento. Assim, indivíduos anteriormente diagnosticados com Síndrome de Asperger passaram a enquadrar-se nas perturbações do Espetro do Autismo sem défice intelectual e com linguagem funcional.

Apesar desta alteração formal, a expressão Síndrome de Asperger mantém-se amplamente utilizada por pais, cuidadores, escolas e até alguns profissionais, por ser percepcionada como mais específica, menos estigmatizante e continuar a ser representativa de um perfil particular de doentes.

Quais os sinais de alerta?

De facto, apenas mudou o nome, porque os sinais a que se deve estar atento prendem-se com dificuldades na comunicação e interação social. A criança pode apresentar dificuldades em compreender determinadas normas de interação, ou discurso excessivamente formal ou literal, dificuldade em manter um contacto ocular sustentado bem como em iniciar ou manter relações com os pares. São frequentes interesses muito intensos e circunscritos, por vezes invulgares para a idade, bem como uma grande necessidade de rotinas e rituais, que se traduz por uma grande resistência a mudanças. 

Não é incomum que os principais sinais e sintomas se associem também a dificuldades na coordenação motora grosseira ou fina e a alterações do processamento sensorial, com hiper ou hiporreactividade a determinados estímulos, como sons, texturas ou cheiros. 

Como evolui esta Perturbação ao longo da vida? 

Muitas vezes estas perturbações passam despercebidas até fases em que as exigências sociais começam a ser maiores, como por exemplo adolescência. A consciência da diferença em relação aos pares começa também a ganhar mais forma nesta altura do desenvolvimento e poderão então co-existir ansiedade, isolamento social, baixa auto-estima ou sintomas depressivos. Nesta fase, devemos estar atentos a um sofrimento emocional significativo, dificuldades marcadas de adaptação escolar ou bullying.

Na idade adulta, a evolução é variável. Muitos indivíduos desenvolvem estratégias compensatórias eficazes e atingem boa autonomia académica e profissional, sobretudo em contextos estruturados, previsíveis ou dentro dos seus interesses específicos. No entanto, podem persistir dificuldades na comunicação interpessoal, no trabalho em equipa, na gestão de conflitos e na flexibilidade cognitiva. As comorbilidades psiquiátricas, como ansiedade, depressão ou perturbações do sono, são relativamente frequentes e podem afetar a funcionalidade global. Os sinais de alerta na vida adulta incluem exaustão social, dificuldades laborais recorrentes, isolamento marcado ou agravamento do sofrimento psicológico.

Assim, embora a Síndrome de Asperger já não exista de facto como diagnóstico formal, o conceito permanece relevante no plano clínico, educativo e social. A sua persistência na linguagem comum reflete a necessidade de reconhecer perfis específicos dentro das Perturbações do Espetro do Autismo, com desafios próprios e potencialidades significativas. Mais do que a designação, importa a identificação precoce, o acompanhamento adequado ao longo do ciclo de vida e a promoção de contextos inclusivos que valorizem a neurodiversidade e maximizem a funcionalidade e a qualidade de vida.

Artigo Por Dra. Filipa Sá Carneiro, Pedopsiquiatra do Núcleo CASA no Porto @nucleo_casa