Queríamos uma caixa de preservativos. Saímos com uma crise existencial. 

Entramos no supermercado com a mesma confiança de quem vai comprar algodão. Dois minutos depois, estamos paradas em frente a um corredor inteiro dedicado à proteção sexual, a questionar todas as decisões da nossa vida até ali.

O corredor é longo. Demasiado longo. Há caixas de todas as cores, tamanhos, promessas e personalidades. “Ultra fino”, “extra seguro”, “efeito calor”, “efeito frio”, “sensível”, “invisível”, “com nervuras”, “com sabor”, “sem látex”, “pele com pele”. Parece menos uma secção de farmácia e mais um catálogo emocional. Só queremos um preservativo. Um. Normal. Seja lá o que isso significa em 2026.

Como mulheres solteiras, sentimos que estamos ali a prestar provas. Não sabemos a quem, mas sentimos. À esquerda, alguém escolhe pastilhas para a garganta. À direita, um senhor compara preços de vitaminas. E nós, no meio, tentamos perceber se “ajuste anatómico” é um elogio ou uma ameaça. Pensamos em ligar a uma amiga, mas desistimos ao imaginar a conversa: “Estou no supermercado. Sim. Não, não sei qual escolher. Não, não sei se precisamos de extra fino ou extra resistente. Depende de quê? Pois. Também não sei.”

Pegamos numa caixa. Largamos. Pegamos noutra. Demasiado confiante. Outra parece demasiado clínica. Há uma claramente otimista demais. Outra parece assumir que a noite vai durar mais do que a nossa bateria social. Por breves segundos, sentimos que precisamos de um curso intensivo antes de tomar uma decisão responsável.

O mais curioso é isto: ninguém nos ensina a escolher. Fala-se de preservativos como se fossem óbvios, mas ninguém explica como se entra num corredor destes sem entrar também numa pequena crise existencial. Não é vergonha, é excesso de opções. É liberdade em formato prateleira.

No fim, escolhemos uma caixa com uma descrição neutra, uma cor discreta e uma promessa honesta. Nada de milagres, nada de efeitos especiais. Pagamos, saímos e respiramos fundo, como quem acaba de concluir uma prova prática da vida adulta sem direito a feedback.

Cá fora, a rua parece igual. O mundo não muda. Ninguém nos pergunta se fazemos a escolha certa. E talvez esse seja o ponto. Percebemos então que toda esta hesitação não é sobre sexo, nem sequer sobre preservativos. É sobre responsabilidade, autonomia e a estranha expectativa de que devemos saber exatamente o que queremos, mesmo quando nunca nos explicam as opções com calma.

No Dia Mundial do Preservativo, saímos do supermercado com menos certezas do que quando entrámos, mas com uma convicção nova: escolher também é aprender. E talvez, um dia, entrar naquele corredor deixe de parecer um teste surpresa e passe a ser apenas mais uma compra banal, como algodão. Até lá, seguimos em frente. Com dúvidas, sim, mas protegidas.

#GlitterUpYourLife