Tendo sempre em consideração a máxima “tudo o que é demais é exagero”, o TikTok é inegavelmente uma grande fonte de informação onde podemos ganhar consciência de comportamentos e aprender a reconhecer bandeiras vermelhas a quilómetros de distância. O problema está quando, mais do que empoderar pessoas a não aceitarem menos do que merecem, os vídeos de 30 segundos que nos aparecem diariamente no feed se tornam um manual inquestionável de tudo o que sabemos (ou não) sobre relações.
A questão não são os standards, pelo contrário: saber o que queremos, o que merecemos e o que não toleramos é saudável e essencial. O ponto é que estamos a transformar isso em regras rígidas, como se tudo o que fuja destes parâmetros seja totalmente condenável. “Se elx não faz x, não te ama”, “O mínimo são flores todas as semanas”, “Se elx não reage assim, não é a pessoa certa”. De repente, todos os comportamentos viraram uma checklist, só que uma relação não é uma lista de tarefas. Ou, pelo menos, não o deveria ser.
O conceito de bare minimum tem espectros bastante distintos. Na vida real, refere-se a respeito, honestidade, lealdade, presença emocional e responsabilidade afetiva. No TikTok, significa surpresas constantes, demonstrações públicas e atitudes copiadas de vídeos virais. E não me interpretem mal, adoro ser tratada como uma princesa, mas acho que são coisas diferentes. Alimentar a ideia de que o amor verdadeiro tem de ser sempre cinematográfico cria uma ilusão perigosa. Isto porque, o amor pode (pode mesmo) fazer-nos sentir num filme, o que não implica que não seja muitas vezes silencioso, simples e imperfeito. O amor é fácil, para quê complicar?
É claro, não existem relações perfeitas, tal como não existem pessoas perfeitas. Enquanto humanos, erramos, faz parte. Como se pode esperar que seres errantes como nós, que vivemos uma vida de falhas, ajamos sempre da forma mais correta no campo relacional? Bom, não se pode. Não existem relações perfeitas, existem relações trabalhadas.
Nenhuma pessoa (a não ser que tenha bola de cristal) vai adivinhar exatamente o que tu queres. Nenhuma conexão funciona sem diálogo e sem transparência. A Internet vende-nos muito a ideia de que a pessoa certa já vem pronta, minuciosamente desenhada para nos agradar, mas não é bem assim. Lá está, os mínimos existem, mas as relações saudáveis são uma construção: comunicação, compreensão, reciprocidade, presença, vontade de melhorar e fazer dar certo. Nada de mind games e testes emocionais.
Aprender a dizer o que gostas, o que precisas e o que te magoa é parte do crescimento. Esperar que o outro descubra tudo sozinho é imaturo e só cria frustração. A solução está, frequentemente, à distância de uma conversa.
Nota: Isto não é um convite para aceitar desrespeito, manipulação ou negligência emocional. Há limites que são inegociáveis, mas também é muito importante saber diferenciar red flags de imperfeições humanas normais. Como eu disse, todos erramos.
Posto isto, a chave para um amor saudável (na grande maioria das vezes) não está nos vídeos do TikTok, está em saber ouvir, falar, tentar ajustar e crescer juntos.
O amor (ainda) é algo que se sente antes de se explicar e, no fundo, sabemo-lo bem, não tivéssemos nós do lado esquerdo do peito o melhor tira-teimas de todos.
#glitterupyourlife