Fevereiro insiste, sempre igual a si mesmo. Todos os anos regressa com a coreografia previsível de promessas românticas, corações simbólicos e a expectativa implícita de que o amor, o “verdadeiro”, se reconhece por dois lugares marcados à mesa de um qualquer restaurante. Como psiquiatra, nunca consegui olhar para o Dia dos Namorados sem uma ligeira distância cínica. O amor, visto de perto, perde rapidamente o verniz narrativo sem nenhuma estria e revela-se muito mais vasto, mais imperfeito e infinitamente mais interessante do que a sua versão comercial.
No consultório, o amor raramente chega com flores ou promessas de felizes para sempre. Chega como ansiedade, medo, cansaço, repetição de padrões que a pessoa jura a si mesma não conseguir compreender. Chega em frases como “eu sei que não me faz bem, mas…” ou “tenho medo de ficar sozinha”. O amor aparece como ausência de si e dos outros, como dependência, como idealização, como tentativa, por vezes desesperada, de não se ser abandonado. Aprendi cedo que poucas experiências humanas são tão romantizadas quanto o amor e, paradoxalmente, tão pouco compreendidas.
Trabalhar como psiquiatra na Alemanha aprofundou essa minha perceção. Esperava diferenças profundas, quase estruturais, na forma como o amor se manifesta. Encontrei, em vez disso, uma semelhança desconcertante. Mudam-se os códigos culturais, muda a aparente linguagem emocional, mas o núcleo é o mesmo: o medo de não ser suficiente, o desejo de se ser visto, a dificuldade em sustentar intimidade sem perder identidade. O sofrimento amoroso é algo que existe num espaço que não precisa de ser traduzido, uma linguagem universal. Reconhece-se no silêncio que pesa entre duas pessoas e na solidão que persiste mesmo quando alguém dorme ao nosso lado.
O que talvez mude é o lugar que o amor romântico ocupa na vida psíquica. Em contextos onde ele não é o centro absoluto da identidade, o “falhanço” amoroso tende a ser menos vivido como um colapso existencial. Onde o amor romântico é elevado a prova máxima de valor pessoal, cada rutura adquire contornos de falência do eu. Não porque o amor seja mais intenso, mas porque lhe foi atribuída uma função impossível: dar sentido à imensidão da experiência humana.
A ciência ajuda a desmontar parte do mito. A paixão, esse estado inaugural que tantas vezes confundimos com predestinação, é um fenómeno neurobiológico previsível e transitório. Dopamina, absorção pelo objeto de desejo, idealização do outro, até uma certa interrupção do pensamento crítico. Nada disto é patológico. Contudo, o problema surge quando esperamos que este estado se mantenha indefinidamente ou quando interpretamos a sua dissipação como sinal de que algo falhou. O amor duradouro não é uma extensão da paixão, é uma transformação, e nem todos estão dispostos, ou preparados, para essa mudança.
Talvez o maior equívoco seja outro: a ideia de que o amor digno desse nome é, por excelência de definição, romântico. Na terapia aprendi a reconhecer a profundidade de vínculos que raramente são celebrados em fevereiro. A amizade adulta, por exemplo, é uma das formas mais sofisticadas de intimidade emocional, sustentada pela escolha, não pelo “destino”. Capaz de atravessar mais silêncios sem colapsar, este amor-amizade frequentemente revela-se mais estável do que muitas relações românticas.
Há também o amor familiar, esse território ambíguo onde coexistem afeto, lealdade e feridas antigas, e há o amor de camaradagem, de propósito partilhado, de reconhecimento mútuo num projeto comum, tão regulador do ponto de vista psíquico e tão pouco romantizado. O sistema nervoso responde a estes vínculos com um contentamento que em nada é menor do que ao do amor romântico.
Com o tempo, tornou-se impossível ignorar um padrão recorrente: muitas mulheres sofrem menos pela ausência de amor e mais pela ausência da narrativa certa. Não estão abandonadas mas desalinhadas com o seu guião interno e não lhes faltam vínculos, mas sim uma permissão interna para os reconhecer como suficientes. Fevereiro exacerba esse desconforto com a sua insistência comercial numa versão à Hollywood do amor.
O amor próprio, tantas vezes invocado e ainda visto muitas vezes como autoindulgência performativa, é a capacidade de não se trair para ser escolhida, de tolerar a solidão sem pânico, de reconhecer quando o desejo de ser amada começa a custar a dignidade. Isso é uma aprendizagem de uma vida e o melhor investimento numa relação que alguma vez se pode fazer.
Se aprendi algo, entre consultórios e países, é que o amor não é escasso. O que tende a ser escassa é a nossa capacidade de o reconhecer fora das normas que nos ensinaram a valorizar. Talvez este seja o gesto menos romântico de fevereiro: olhar para a nossa vida emocional sem hierarquias artificiais, sem comparações desmedidas e sem a crença subtil de que nos falta, invariavelmente, alguma coisa.
Dra. Inês Costa Maia, Psiquiatra e Psicoterapeuta
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