Maternidade aPita – Identidade: quem eu era, quem eu sou

Episódio 2
Agora, quero aproveitar o tempo e os dias com calma. Com presença.
Lembro-me de uma conversa com uma amiga, poucos dias depois do Vicente nascer. Ela foi tão importante neste momento — e talvez nem saiba. Se calhar porque já passou por isto há um ano e sabe o que é sentir tudo ao mesmo tempo.

Ela perguntou-me:
— Como te sentes tu? Nada de baby blues?

E eu respondi:
— Para já tenho picos de choro, mas porque a vida mudou. São muitos sentimentos ao mesmo tempo.

Era algo que eu queria muito. E agora que chegou, comecei a questionar esta fase.
É um verdadeiro mix de sentimentos.

Vivi um último trimestre muito intenso e isso fez com que não aproveitasse da melhor forma a reta final da gravidez. Bem… é um dia de cada vez. E saber aproveitar cada momento. A vida passa rápido.

Ela disse-me algo que ficou comigo:
— Percebo-te tão bem. Sentia o mesmo. Queria muito a B, mas também queria a minha vida de volta. Acho que é uma sensação de luto da nossa antiga vida. E não tens de te sentir mal por isso.

E foi aqui que tudo fez sentido.
Quando o bebé nasce, nasce também um luto. O luto da pessoa que éramos.
Era exatamente isso que eu estava a sentir. Tudo tinha mudado. Para sempre.
Durante a gravidez, diziam-me muitas vezes que ia esquecer tudo.

As náuseas do primeiro trimestre.
As dores do parto.
É verdade, esquecemos.
Mas eu faço questão de me querer lembrar. Não quero apagar nada.

Lembro-me do momento em que o médico estava a tirar o Vicente da minha barriga e me perguntou se o queria ver. Eu respondi automaticamente que não sabia — assustada com tudo o que aí vinha. Assim que ele nasceu, o médico baixou a cortina. E no instante em que o vi, senti: era o meu bebé.

Ainda bem que o Dr. fez questão que eu vivesse aquele momento.
Hoje sou mais feliz. Mais realizada. O nascimento do Vicente deu-me um novo propósito. Redirecionou a minha vida. Se calhar de uma forma que eu não estava à espera.
Vale a pena chegar aos sete meses e vê-lo sorrir para mim como se eu fosse o melhor da vida dele. É reconfortante.

É, sem dúvida, uma fase especial. Única. Que nunca mais se vai repetir — com este bebé.
“Aproveita que passa rápido.”
Acho que nunca ouvi tanto esta frase na minha vida. No início, irritava-me. Criava-me pressa e ansiedade.
Mas com o passar dos dias, começou a fazer sentido.
Estamos sempre à espera da próxima fase.
Quando começa a ver. Quando começa a rir. Quando começa a andar.
E esquecemo-nos de parar.
De aproveitar o agora. Este momento.

Sabem quando nos deslocamos de carro de um sítio para o outro e estamos tão em piloto automático que nem nos lembramos da viagem? Quero viver ao contrário disso.

Quem eu sou agora?
Estou a descobrir-me.
E a permitir-me viver.

Ficas para o próximo capítulo?

Isto é Maternidade aPita,
por Tatiana Pita, no The Glitter Dream.

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