Durante a infância e a juventude, as pessoas entram na nossa vida com uma facilidade quase automática. Os amigos são muitos, os grupos são grandes, há jantares, aniversários, saídas onde se sentam vinte pessoas à mesma mesa e chamamos “amigos” a quase todos. É uma fase bonita, leve, onde o convívio acontece sem grandes filtros.
Mas a vida avança. E nós avançamos com ela.
À medida que nos conhecemos melhor, que amadurecemos, que começamos a perceber quem somos e o que precisamos, algo muda. Começamos a perceber que nem todas as pessoas que nos rodeiam estão realmente lá. Algumas estão apenas a ocupar espaço. A enfeitar.
Ao longo da minha vida, houve momentos em que fiquei triste com atitudes de pessoas que eu considerava minhas amigas. Na altura doeu. Hoje, olho para trás e faço uma pergunta diferente: será que alguma vez foram realmente minhas amigas ou nunca passaram de conhecidas com muita proximidade?
Com o tempo, aprendi a importância de ter um círculo pequeno. Um círculo seguro.
Pessoas que nos querem bem de forma genuína, que nos apoiam, que ficam felizes com as nossas vitórias — e isso nota-se, porque estão lá para as celebrar connosco.
Cheguei a sentir ansiedade por estar em certos grupos de amigos. Não por mim, mas pela sensação constante de desconforto, pela ideia de que algumas pessoas daquele grupo não gostavam assim tanto de mim. E durante muito tempo aceitei isso como normal. Até ao dia em que pensei: porque é que me haveria de sujeitar a isso?
Hoje adoro a sensação de estar rodeada por uma bolha de amor. De me sentir protegida, tranquila, eu própria, quando estou com o meu grupo de amigos. E isso só foi possível quando parei um segundo e me fiz uma pergunta muito simples, mas muito reveladora: dos teus “amigos”, quais seriam aqueles que vinham a correr no exato momento em que lhes ligasses a dizer que precisavas de ajuda?
A resposta foi clara. Amigos meus que nem vivem em Portugal chegariam mais depressa do que pessoas que moram a menos de vinte minutos de mim. Foi nesse momento que defini o meu círculo. E sinto-me profundamente confortável com essa decisão.
Afastarmo-nos de algumas pessoas em certas fases da vida não tem de ser tratado como um crime. É normal. Faz parte. Há pessoas que saem da nossa vida por atitudes concretas, porque nos falharam, porque nos desiludiram. Mas há outras que simplesmente deixam de fazer sentido. Durante anos tivemos os mesmos gostos, as mesmas rotinas, o mesmo estilo de vida — e agora já não temos. E está tudo bem.
Ambos os cenários fazem parte da vida de todos nós. Falo por experiência própria.
Temos todo o direito de nos afastar em qualquer uma dessas situações.
O meu eu de 15 anos não é o mesmo que o meu eu de 25. E, por isso, as pessoas que me acompanham também não têm de ser as mesmas. Ou a amizade é suficientemente forte para sobreviver a todas as metamorfoses da vida, ou é natural que haja afastamentos pelo caminho.
Por vezes, esta perceção é difícil quando a vida está estável e monótona. Mas em momentos mais difíceis, em fases de viragem, tudo fica mais claro. É aí que percebemos quem está lá para nos apoiar, quem celebra as nossas vitórias, quem bate palmas mais alto do que os nossos pensamentos autodestrutivos — e quem fica em silêncio.
E essa clareza, apesar de por vezes doer, também é libertadora.
Artigo por Carolina Silva
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