Há dias, ao atravessar um shopping iluminado, dei por mim a observar um fenómeno curioso. O brilho das luzes que se refletia nas montras, nem sempre se refletia no rosto das pessoas. Entre sacos de compras, listas e músicas repetidas, vi algo que reconheço muitas vezes no consultório: o desfasamento entre a época festiva e o estado emocional real de cada um.
O Manifesto do Glitter convida-nos com beleza e criatividade a reencontrar o encanto natalício, a lembrar com sensibilidade que pequenas práticas podem reacender algo quente dentro de nós. E este é um convite precioso. Ao mesmo tempo, há um outro lado desta quadra, menos discutido, do qual também importa falar: é permitido não entrar no espírito de Natal.
Sim, é permitido. E não, não é menos humano por isso. Porque a verdade, vista de perto, é simples: os sentimentos não obedecem ao calendário festivo. Podemos estar a 1 de dezembro e sentir alegria e antecipação. Mas também podemos sentir cansaço, incerteza, vulnerabilidade, saudade de quem já partiu ou se afastou, ou uma espécie de desencontro entre o que se espera que sintamos e aquilo que realmente sentimos.
Como psiquiatra e psicoterapeuta, vejo isto acontecer todos os anos. Pessoas funcionais que, por detrás de agendas festivas, carregam pressões internas, memórias difíceis, comparações constantes ou apenas a exaustão de um ano longo demais. Há quem associe esta época à perda, há quem viva o Natal como um lembrete de relações que mudaram, e há quem simplesmente não encontre neste mês aquilo que muitos descrevem como “magia”. E gostava que essas pessoas soubessem que não o precisam de forçar.
A verdade é que o espírito natalício não gosta de imposições. É um lugar mais íntimo e delicado do que parece. Ele floresce quando há espaço, não quando há uma obrigação. Por isso, se as playlists de Natal, o bolo-rei ou as tradições não acendem nada em ti respira com calma. Não significa que há algo de errado contigo, significa apenas que és humano.
E talvez o teu espírito natalício este ano seja diferente. Talvez seja silencioso, minimalista, caseiro, introspectivo. Talvez seja feito de descanso. Ou de pausa. De cuidar da tua saúde mental. Ou de simplesmente permitir-te existir sem expectativas (uma arte que parece estar-se a perder).
Talvez até descubras que o teu Natal começa noutro dia qualquer: num encontro inesperado, num gesto de ternura, numa reconciliação contigo próprio. E isso também é espírito natalício.
A parte mais bonita do Manifesto do Glitter é esta: encontrar luz pode ser um ato pessoal. Um gesto e uma prática tuas. Um pequeno lugar onde podes largar o cansaço e, pouco a pouco, reacender algo que faça sentido para ti, mesmo que não brilhe tanto como as decorações de um shopping.
Se quiseres seguir as sugestões do manifesto cria as tuas tradições, resgata memórias doces, oferece gestos de bondade.
Se não te fizer sentido: dá-te permissão para viver esta época de outra forma.
No fundo, o Natal não precisa de te puxar sempre para cima. Às vezes, basta que te acolha exatamente onde estás. E esse brilho muito próprio talvez seja mesmo o mais verdadeiro de todos.
Este conteúdo destina-se exclusivamente a fins informativos, não constitui aconselhamento médico e não substitui o aconselhamento, diagnóstico ou tratamento prestado por profissionais de saúde. Procure sempre o aconselhamento do seu médico, de um profissional de saúde mental ou de outro prestador de cuidados de saúde qualificado relativamente a quaisquer questões que possa ter sobre uma condição médica.
Artigo por Dra. Inês Costa Maia, Psiquiatra e Psicoterapeuta
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