A importância de desligar nas férias

Escrevo este artigo com uma certa mea culpa na consciência.

Porque durante anos fui incapaz de desligar do trabalho nas férias e, além da toalha de praia, do protetor, do livro que nem sempre lia, do lanche das criaturas pequenas, dos baldes, das pás, e das braçadeiras, levava no atrelado tarefas para adiantar e projetos para concluir.

Levava comigo uma ideia/sensação de “podes sempre fazer mais e melhor”, e aproveitar o tempo. Até porque também estudava e, portanto, o tempo assumia uma contagem implacável na minha cabeça, e soava como um relógio daqueles antigos de pé alto, tic-tac, tic-tac e de onde saía de hora em hora um cuco assustador para lembrar deveres por finalizar e expetativas para gerir.

Com a maturidade da vida, o tempo passou a soar-me como uma espécie de coisa mais suave e elástica, apesar de sempre com muitos acessórios dentro, mas fui aprendendo devagar a desligar o cuco, e as férias agora soam a prazer, soam a conexão comigo mesma, soam a conexão com o ambiente e a natureza que me rodeia (no verão recomendo sempre férias de natureza), deixem as urbes para o outono/inverno, porque essas permitem desligar menos.

Durante as férias de verão, o nosso corpo aproveita para recarregar baterias, e se não nos enfrascarmos em gins ao pôr do sol e não comermos bolas de Berlim todos os dias, o nosso corpo regenera-se e pura e simplesmente rejuvenesce.

Ah, sim, porque desligar nas férias, permite ao nosso corpo e mente, fazerem outras coisas que não fazem tanto durante os dias de trabalho por falta do tal espaço sem nada, por falta do tal ócio tão mal-amado pela malta que está sempre a fazer coisas, como se não pudessem abrandar, nem sequer nas curvas do caminho. Enfim, desligar do trabalho, do ruído da cidade, dos estímulos constantes do tik-tok e do Instagram, poder não fazer nada, mas ser muita coisa e observar o mundo de olhos fechados, é recuperar energias, é observar pequenos acontecimentos como as ondas do mar que vêm e vão ou as partículas de areia que se infiltram na toalha por muito que esta seja sacudida.

Ficar em estado estático de contemplação é fundamental para renovar a nossa criatividade, estimular a nossa imaginação, desintoxicar verdadeiramente o nosso corpo sem necessidade de sumos verdes ou planos detox. Estar sem planos, deixar-se fluir nas férias é muito importante para tirar pesos e acrescentar leveza. Experimentar um dia sem telemóvel ou qualquer espécie de tecnologia e aproveitar para caminhar e fazer um banho de floresta ou de mar, sem pressa nem sentido de urgência para nada.

É bom e recomenda-se. Estimula a imunidade, reforça as nossas células anti-tumorais, traz sentido de pertença e gratidão a algo maior e tão especial, que se não desligarmos do resto, nem nas férias o percebemos. Permita-se apenas ser e estar, algo raro nos dias de hoje.

Boas férias e boas conexões com o que realmente importa e faz bem!

Artigo escrito por Rute Pereira.
#TheGlitterDream